Hitler ordena ataques contra navios brasileiros


Uma estratégia naval supervisionada pelo próprio Adolf Hitler resultou no ataque generalizado de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros junto à nossa costa nos primeiros oito meses de 1942, quando o governo Getúlio Vargas ainda persistia em manter-se neutro na Segunda Guerra Mundial. Documentos do Tribunal de Nuremberg guardados no Arquivo Histórico do Itamaraty mostram que o Führer autorizou pessoalmente o uso da força contra embarcações do Brasil em maio daquele ano, por considerar os brasileiros em guerra contra o Reich.

Brasil na II Guerra Mundial

Navio de guerra brasileiro atacando um submarino alemão, em 1944.

O Brasil teve 34 navios torpedeados pelos submarinos do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. Com exceção do navio Taubaté; torpedeado em 22 de março de 1941, no Mediterrâneo, próximo ao Egito, o que causou a morte de uma pessoa, todos os ataques ocorreram depois de o Brasil romper relações diplomáticas com o Eixo.

De fevereiro a agosto de 1942, dezenove navios brasileiros foram torpedeados, levando à morte de 742 pessoas. Os torpedeamentos continuaram a ocorrer depois de agosto de 1942, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista.

O último navio brasileiro a ser torpedeado foi o Vital de Oliveira, em 19 de julho de 1944, quando seguia em direção ao Rio de Janeiro, após escalas no litoral do Nordeste e em Vitória. A maioria das embarcações brasileiras torpedeadas era de navios mercantes. As exceções foram o Vital de Oliveira, que era um navio de guerra; no ataque, da sua tripulação de 275 pessoas, 99 morreram, e o Shangri-lá, um barco pesqueiro, atacado em 22 de julho de 1943; as dez pessoas que estavam nesse barco perderam a vida.

Vital de Oliveira

Vital de Oliveira - Atacado  pelo U-861 – 99 mortos

Ao todo, os torpedeamentos de embarcações brasileiras causaram a morte de 1.081 pessoas. Para termos uma ideia do impacto e do pânico gerado por esses ataques, é preciso levar em conta as opções de transporte então disponíveis, na década de 1940, entre as regiões do Brasil: a qualidade e a quantidade das rodovias brasileiras deixavam a desejar; faltavam ferrovias que interligassem as várias regiões; quase não havia aeroportos.

Portanto, para a maioria dos brasileiros que precisasse viajar de um estado para outro ou de uma região para outra, uma das poucas opções disponíveis era utilizar navios. Era comum navios mercantes transportarem passageiros, que aproveitavam as escalas para viajar de um ponto a outro do país. Assim, qualquer família brasileira que estivesse viajando de navio naquela época corria o risco de ser vítima de um ataque de submarino alemães.

E para quem morava no litoral do Nordeste, a guerra era  uma realidade bem mais próxima do que poderia parecer para os brasileiros de outras regiões. Um exemplo disso é o que ocorreu com o navio Baependi, afundado por volta das 19 horas do dia 15 de agosto de 1942. Somados tripulantes e passageiros, o navio transportava 306 pessoas, das quais 270 morreram.

Baependi

Baependi - Atacado pelo U-507 –  270 mortos

No dia seguinte, cadáveres, inclusive de crianças, apareceram, trazidos pela correnteza, na praia próxima à vila de Mosqueiro, na costa do Sergipe. As ondas também trouxeram malas com pertences dos passageiros e pedaços do navio.

Poucas horas depois, chegaram notícias dos afundamentos de outros dois navios brasileiros: o Araraquara; cujo torpedeamento também ocorreu no dia 15 de agosto, causando a morte de 131 pessoas - apenas onze sobreviveram ao ataque,  e o Aníbal Benévolo, cujo torpedeamento ocorreu no dia 16 de agosto, causando 150 mortes - apenas quatro pessoas sobreviveram.

Num curto intervalo de tempo, os três navios foram destruídos por um único submarino alemão, o U-507, comandado pelo capitão Harro Schacht. Em 15 de janeiro do ano seguinte, o U-507 acabou sendo afundado por um avião da marinha dos Estados Unidos.

Anibal Benevolo

Aníbal Benevolo - Torpedeado pelo U-507 – 150 mortos

Existe farta documentação comprovando que foram mesmo submarinos alemães os responsáveis pelo torpedeamento da grande maioria dos navios brasileiros durante a Segunda Guerra. A única exceção é o navio Cabedelo, que "desapareceu", após ter sido afundado por um submarino alemão ou italiano. O Cabedelo foi o quarto navio brasileiro a ser torpedeado, sendo a data mais provável desse afundamento é 25 de fevereiro de 1942.

Pesquisadores europeus já atribuíram a autoria do afundamento do Cabedelo ao Da Vinci, um submarino italiano. Também foi considerada a possibilidade de que o Cabedelo tenha sido torpedeado por outro submarino italiano, o Torelli.

Apesar de todas as evidências comprovando que submarinos do Eixo torpedearam os navios brasileiros, ainda há quem acredite na absurda ideia de que submarinos norte-americanos teriam sido os verdadeiros responsáveis pelos ataques, com a intenção de obrigar o Brasil a entrar na guerra.

Antonico

Antonico - Atacado pelo U-516  –  16 mortos

Tal ideia não passou de um boato criado pela propaganda dos quinta-colunas. As matérias-primas transportadas pelos navios brasileiros eram de vital importância para os Aliados, portanto, só interessaria aos países do Eixo atacar esses navios.

Além disso, naquela época, a maior parte da frota dos submarinos norte-americanos não estava no oceano Atlântico, mas no Pacífico, torpedeando navios de guerra japoneses. Observe-se também que a marinha dos Estados Unidos preferia investir na construção de navios porta-aviões do que na guerra submarina, uma especialidade da marinha alemã nas duas guerras mundiais.

A notícia dos ataques contra navios brasileiros comoveu a população brasileira na época. Também motivou reações violentas de cidadãos que, indignados e desejando vingança, se voltaram contra imigrantes alemães, italianos e japoneses.

Em muitas cidades brasileiras ocorreram episódios de depredações de estabelecimentos comerciais pertencentes a imigrantes vindos de países que faziam parte do Eixo  e até mesmo tentativas de linchamento desses imigrantes.

Araraquara

Araraquara - Atacado pelo U-507 – 131 mortos

Após a entrada do Brasil na guerra, esses imigrantes passaram a ser vigiados pelas autoridades brasileiras, não sendo poucos os que foram vítimas de perseguições e arbitrariedades. Essas pessoas costumavam ser suspeitas de espionagem.

Aproveitando a indignação popular com os ataques alemães a navios brasileiros, a União Nacional dos Estudantes (UNE) organizou passeatas nas principais cidades brasileiras, exigindo a entrada do Brasil na guerra ao lado dos Aliados. Nessas passeatas era comum que alguns estudantes aparecessem fantasiados de Hitler, com o objetivo de ridicularizar o ditador nazista. Tais passeatas acabaram recebendo adesão popular.

U-848

O submarino alemão U-848, afundado por aviões norte-americanos baseados em Natal.

Ao exigir a entrada do Brasil na guerra contra as ditaduras da Europa, a UNE estava pressionando o governo brasileiro a deixar de "ficar em cima do muro" , já que o presidente Getúlio Vargas tentava manter a neutralidade do Brasil no conflito a todo custo, mesmo após os primeiros ataques alemães contra navios brasileiros.

Vargas, aliás, temia que a entrada do Brasil na guerra, ao lado das democracias, abrisse condições para que os opositores do seu governo exigissem o fim do Estado Novo e a realização de eleições diretas para presidente.

Em 22 de agosto, após uma reunião ministerial, o Brasil finalmente declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista. O Brasil estava oficialmente na guerra.

Fontes: UOL Educação Portal FEBTok de História

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