Meu avô teria me matado a tiros: a comovente história de Jennifer Teege

"A primeira coisa que reconheci foi o vestido com motivos florais, ele era muito exótico para a época e na única foto que tenho de minha avó, ela estava usando esse vestido".  Essas palavras são de Jennifer Teege, uma alemã que acaba de escrever sua própria biografia: Amon – Meu avô teria me matado a tiros; um livro com um achado histórico tão surpreendente quanto inesperado: Amon Göth, o comandante nazista conhecido como o "carniceiro de Plaszow" , cuja crueldade foi magistralmente retratada por Ralph Fiennes no filme A lista de Schindler, teve uma neta negra. Essa neta é Jennifer, agora uma mulher com 42 anos. Monika, a mãe de Jennifer, é filha de Göth com sua secretária no campo de concentração. Jennifer nasceu do romance de Monika com um estudante nigeriano.

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"Eu reconheci o vestido florido de minha avó em um livro da capa vermelha que tirei da prateleira da Biblioteca de Hamburgo por acaso." – conta Jennifer, que trabalha com publicidade, é casada e mãe de dois rapazes. "Eu estava andando pela seção de psicologia e história. Eu sofri de depressão durante quase toda a minha vida e procurava algo para ler quando o volume de capa vermelha me chamou a atenção. O título do livro, escrito por uma certa Monika Hertwig, um pseudônimo usado por minha mãe, perguntava: Devo amar meu pai? Certo?

"Eu comecei a folhear o livro, vi fotografias que me eram familiares e encontrei os dados biográficos de minha mãe e de minha avó. Quando eu descobri quem era meu avô, não consegui ir para casa sozinha." Naquelas páginas, Jennifer descobriu o que sua mãe nunca quis lhe revelar: ela era neta de Amon Göth, um vienense nascido em 1908 que em 1930 havia ingressado no nazismo e que em 1943 fora nomeando comandante do campo de concentração de Plaszow, na Polônia ocupada pela Alemanha nazista, onde ele demonstrou extrema crueldade para com os presos. Entre outros sinistros atos de barbárie, Göth costumava atirar de sua varanda em prisioneiros judeus que andavam pelo pátio do campo. "Meu pai atirou em mulheres que carregavam bebês nos braços." – escreveu Monika no seu livro. "Me atormenta imaginar o quanto dele pode haver em mim." Quando Jennifer nasceu, Monika a entregou para uma instituição de freiras. "Minha mãe vinha me visitar regularmente, também  minha avó me visitou algumas vezes, mas elas nunca falaram sobre a história da família." – diz Jennifer.

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Rute Irene Kalder com a filha Monika

A avó de Jennifer, Rute Irene Kalder, era uma ex-atriz que, primeiro se tornou secretária de Göth e depois, amante do nazista. Em novembro de 1944, Göth foi preso pela Gestapo, acusado de se apropriar de bens judeus, que pela lei dos nazistas pertenciam ao Terceiro Reich – ele foi intimado a comparecer perante um júri da SS. O iminente fim da guerra e a aproximação cada vez maior dos Aliados, impediram esse julgamento e Göth foi enviado para uma base militar numa cidade da Alemanha, lá, os médicos diagnosticaram que ele tinha doenças mentais e o internaram num sanatório, onde ele foi capturado por tropas norte-americanas em maio de 1945. Entregue aos poloneses, Göth foi julgado e condenado à morte, sendo enforcado, num local perto do antigo campo da morte que comandou, em 13 de setembro de 1946, aos 37 anos. Monika tinha apenas um ano de idade. Ruth sempre defendeu o amante, ela se suicidou com comprimidos em 1983, abraçada a um retrato de Göth.

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Amon Göth logo após sua prisão em 1945.

Aos quatro anos, Jennifer foi morar com a família que a adotaria. "Depois disso, não tive mais contato com a minha mãe. Ela também já não usava mais o nome de solteira e eu não recebia muitas informações do órgão responsável pela adoção", conta Jennifer, que fala hebraico e viveu quatro anos em Israel.

Ao ver a foto e o nome da mulher no livro encontrado na biblioteca de Hamburgo, porém, as lembranças voltaram à tona. Ela se recordou de como, ainda criança, escrevera o nome Jennifer Göth em seu primeiro caderno - o sobrenome, depois, acabou trocado pelo da família adotiva. "A descoberta me deixou completamente transtornada", conta ela, que pediu para o marido buscá-la na biblioteca e passou dias sem sair de casa - primeiro para ler o livro, depois para absorver o impacto de suas páginas.

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Nos quatro anos em que viveu em Israel, para onde foi com 20 anos para se dedicar a estudos sobre o Oriente Médio e sobre a África, Jennifer já sentira um certo mal-estar por causa de sua nacionalidade alemã. Com a descoberta de suas origens, o temor era que seus dois principais amigos em Israel pudessem se afastar. A resposta deles, narrada no livro, a tranquilizou: "O Holocausto está no nosso DNA. Mas que culpa você tem? Você é a Jenny. Deixa disso."

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